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Ultrassom normal descarta endometriose? Entenda o que o exame pode mostrar

23 de set.
6 min de leitura
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Recebeu o resultado de um ultrassom “normal”, mas continua sentindo dores fortes na menstruação, dor durante a relação ou desconforto para evacuar?


Uma dúvida muito comum é: se o ultrassom não mostrou nada, significa que eu não tenho endometriose? A resposta é: não necessariamente.

O ultrassom, especialmente o ultrassom transvaginal realizado com avaliação direcionada para endometriose, é uma ferramenta muito importante na investigação da doença. Porém, um exame normal não é suficiente, sozinho, para descartar todos os tipos de endometriose.

Isso acontece porque a doença pode se apresentar de diferentes formas e em diferentes locais da pelve. Algumas lesões podem ser identificadas pelo exame de imagem, enquanto outras, principalmente lesões superficiais e pequenas, podem não ser visualizadas.



Afinal, o que é a endometriose?


A endometriose é uma doença inflamatória crônica caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora do útero.


Ela pode atingir diferentes estruturas da pelve, como ovários, intestino, bexiga, ligamentos e peritônio.


Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a endometriose afeta aproximadamente 10% das mulheres em idade reprodutiva no mundo, o equivalente a cerca de 190 milhões de pessoas.


E existe um ponto importante: a intensidade dos sintomas não depende necessariamente do tamanho ou da quantidade de lesões.


Por isso, algumas mulheres podem apresentar alterações importantes na qualidade de vida mesmo quando os exames de imagem não mostram uma alteração evidente.


Um ultrassom normal pode acontecer mesmo quando existe endometriose?

Sim.

Essa é uma das informações mais importantes para quem está investigando a doença.

A diretriz da European Society of Human Reproduction and Embryology (ESHRE) recomenda o uso de exames de imagem, como ultrassom e ressonância magnética, na investigação da endometriose. Entretanto, destaca que um exame de imagem negativo não exclui a doença, especialmente quando se trata de endometriose superficial do peritônio.


A recomendação do NICE, Instituto Britânico de Referência em Diretrizes Clínicas, segue a mesma linha: a possibilidade de endometriose não deve ser descartada quando o exame físico e o ultrassom são normais.

Ou seja:

Ultrassom normal não significa necessariamente ausência de endometriose.

Mas então o ultrassom serve para quê?


Serve — e muito.

O problema não está no exame em si, mas em interpretar um resultado normal como se ele fosse capaz de excluir qualquer forma da doença.

Um ultrassom transvaginal especializado pode ajudar a identificar, por exemplo:

  • endometriomas nos ovários;

  • endometriose profunda;

  • alterações envolvendo o intestino;

  • alterações na bexiga;

  • alterações na anatomia pélvica;

  • sinais indiretos da doença;

  • outras condições que podem causar sintomas semelhantes.

As diretrizes do NICE recomendam o ultrassom transvaginal para pessoas com suspeita de endometriose justamente porque ele pode identificar endometriomas e endometriose profunda, além de ajudar a investigar outras causas para os sintomas.


Existe diferença entre um ultrassom ginecológico comum e um ultrassom direcionado para endometriose?

Sim.

Essa diferença é especialmente importante.

Um ultrassom ginecológico convencional pode avaliar muito bem diversas estruturas da pelve. Porém, quando existe suspeita de endometriose, pode ser necessário realizar uma investigação mais direcionada.

O exame especializado procura alterações em diferentes regiões da pelve e pode utilizar técnicas específicas para avaliar estruturas que podem estar comprometidas pela doença.

Além disso, a experiência do profissional que realiza e interpreta o exame também importa.

O NICE recomenda que ultrassons especializados para endometriose sejam planejados e interpretados por profissionais com experiência em imagem ginecológica.

Estudos também mostram que a capacidade do ultrassom de identificar endometriose profunda pode variar conforme o local da doença e a experiência do examinador.


Por isso, existe uma diferença importante:

“Meu ultrassom deu normal” não é exatamente a mesma informação que:

“Fiz um ultrassom transvaginal especializado para investigação de endometriose e não foram identificadas alterações compatíveis com endometriose profunda ou endometrioma.”

O contexto do exame faz diferença.


Quais sintomas podem levantar suspeita de endometriose?

A endometriose pode apresentar diferentes manifestações. Entre os sinais que merecem investigação estão:

  • cólica menstrual muito forte;

  • dor pélvica que interfere na rotina;

  • dor durante ou depois da relação sexual;

  • dor para evacuar, especialmente durante a menstruação;

  • dor ou ardência para urinar relacionada ao ciclo menstrual;

  • alterações intestinais que pioram durante a menstruação;

  • sangramento menstrual intenso;

  • dificuldade para engravidar;

  • dor pélvica persistente;

  • cansaço associado aos períodos de dor.

A ESHRE destaca sintomas como dismenorreia, dor profunda durante a relação, dor ao evacuar, sintomas urinários e infertilidade entre as manifestações que devem levar à investigação de endometriose.

A OMS também reconhece dor menstrual intensa, dor pélvica crônica, infertilidade, alterações intestinais e urinárias, entre outros sintomas, como possíveis manifestações da doença.


E se o ultrassom estiver normal, mas os sintomas continuarem?

É justamente nesse cenário que a avaliação médica individualizada se torna importante.

O diagnóstico da endometriose não deve depender exclusivamente de uma imagem.

O médico considera o conjunto de informações:

sintomas + histórico clínico + exame físico + exames de imagem + resposta aos tratamentos + contexto individual.

Quando existe suspeita persistente, mesmo diante de um exame de imagem normal, pode ser necessário aprofundar a investigação.

As diretrizes do NICE, inclusive, orientam que a laparoscopia pode ser considerada em pessoas com suspeita de endometriose mesmo quando o ultrassom ou a ressonância magnética foram normais.

Isso não significa que toda pessoa com dor pélvica e ultrassom normal precise fazer uma cirurgia.

A decisão depende da história clínica, dos sintomas, dos objetivos da paciente e da avaliação do especialista.


Quando a ressonância magnética pode ser indicada?

Em algumas situações, especialmente quando existe suspeita de endometriose profunda, a ressonância magnética da pelve pode complementar a investigação.

O NICE recomenda considerar ultrassom especializado ou ressonância magnética quando há suspeita de endometriose profunda.

Mas é importante entender que ressonância normal também não exclui todas as formas de endometriose.

A ESHRE ressalta que as técnicas de imagem disponíveis apresentam limitações principalmente para identificar a endometriose superficial.


Então como a endometriose é diagnosticada?

Atualmente, a investigação é feita de maneira integrada.

1. Avaliação dos sintomas

O primeiro passo é entender como a dor acontece, quando aparece, se tem relação com a menstruação e como interfere na rotina.

2. Exame físico

Quando indicado, o exame ginecológico pode fornecer informações importantes e ajudar a identificar sinais sugestivos da doença.

3. Exames de imagem

O ultrassom transvaginal especializado e, em determinados casos, a ressonância magnética podem ajudar a identificar endometriomas e formas profundas da doença.

4. Avaliação especializada

Quando os sintomas persistem ou existe suspeita clínica, a avaliação com um profissional familiarizado com endometriose pode ajudar a definir os próximos passos.

5. Laparoscopia em situações selecionadas

Em casos específicos, a laparoscopia pode fazer parte da investigação e, quando indicada, também pode permitir o tratamento cirúrgico da doença.

A indicação não deve ser automática. É uma decisão que precisa considerar o quadro de cada paciente.


Um exame normal não deve invalidar os sintomas

Esse talvez seja o ponto mais importante.

Se você sente uma dor que não é normal para você, o fato de um exame ter vindo normal não significa que a sua dor não tenha uma causa.

A investigação pode precisar ir além de um único exame.

Endometriose é uma doença complexa e, em algumas situações, chegar ao diagnóstico exige olhar para o quadro como um todo.

Por isso, se você apresenta sintomas compatíveis com endometriose e os exames iniciais não explicaram o que está acontecendo, vale conversar com um especialista.


Quando procurar um especialista em endometriose?

Uma avaliação especializada pode ser especialmente importante quando:

  • a cólica é intensa e interfere na rotina;

  • a dor persiste apesar do tratamento;

  • existe dor durante as relações;

  • há sintomas intestinais ou urinários relacionados ao ciclo;

  • existe dificuldade para engravidar;

  • exames apresentam alterações sugestivas de endometriose;

  • ou os sintomas continuam mesmo com exames considerados normais.

O diagnóstico adequado começa pela escuta da paciente e pela investigação individualizada.

Se existe suspeita de endometriose, não é preciso esperar que todos os exames apresentem alterações para procurar avaliação especializada.


Conclusão: ultrassom normal descarta endometriose?

Não. Um ultrassom normal não descarta sozinho a possibilidade de endometriose.


O exame é extremamente útil, principalmente quando realizado de forma direcionada e por profissional experiente, mas algumas formas da doença podem não ser identificadas pelos métodos de imagem disponíveis atualmente.

Por isso, sintomas persistentes e compatíveis com endometriose merecem atenção, mesmo diante de exames aparentemente normais.


Se você sente dores importantes ou apresenta sintomas que podem estar relacionados à endometriose, procure uma avaliação especializada. Um diagnóstico adequado pode ajudar a direcionar o tratamento e melhorar a qualidade de vida.


Sobre o Dr. Lucas Torres Pires

O Dr. Lucas Torres Pires é Cirurgião Geral, Cirurgião Oncológico e especialista em Endometriose, com atuação em cirurgia minimamente invasiva, incluindo laparoscopia e cirurgia robótica.

A avaliação individualizada é fundamental para entender cada caso e definir, junto à paciente, a melhor estratégia de investigação e tratamento.


Referências científicas

  1. Becker CM, Bokor A, Heikinheimo O, et al. ESHRE guideline: endometriosis. Human Reproduction Open. 2022;2022(2):hoac009.

  2. European Society of Human Reproduction and Embryology (ESHRE). ESHRE Guideline: Endometriosis. 2022. A diretriz recomenda exames de imagem na investigação, mas ressalta que resultado negativo não exclui endometriose, especialmente a doença peritoneal superficial.

  3. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Endometriosis: diagnosis and management (NG73). Atualização das recomendações diagnósticas em 2024.

  4. Leonardi M, et al. Predictive Value of Ultrasound Imaging for Diagnosis and Surgery of Deep Endometriosis: A Systematic Review. Journal of Minimally Invasive Gynecology. 2023.

  5. Guerriero S, et al. Ultrasound techniques in the diagnosis of deep pelvic endometriosis: algorithm based on a systematic review and meta-analysis. Fertility and Sterility. 2015.

  6. World Health Organization (WHO). Endometriosis. Atualizado em 15 de outubro de 2025.




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Sobre o Dr. Lucas Pires



Sou Dr. Lucas Pires, especialista em:

  • Cirurgia Geral

  • Cirurgia Oncológica

  • Cirurgia de Endometriose

Atua com técnicas modernas, incluindo cirurgia laparoscópica e robótica, que proporcionam recuperação mais rápida e segura.

📍 Vitória – ES




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